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6.2.10
O Homem Velho
Caetano Veloso, falando do seu seu pai, na TPM. Achei de uma beleza:
Você escreveu uma música sobre velhice logo depois que seu pai morreu, “O Homem Velho”, em que definia: “O homem velho é o rei dos animais”. Eu estava ficando maduro, ficando velho. Mas muito menos do que hoje [risos]. Achei bonito dizer aquilo como uma lembrança de meu pai. Ele era um homem muito altivo, mas suave e elegante. Muito bom, muito equilibrado, muito respeitado na cidade inteira. Então, era um entusiasmo afirmativo diante dessa figura patriarcal benigna.
Existe alguma cena que resuma a relação de vocês? Tem uma muito forte que sintetiza tudo. No dia em que saí da prisão [em 1969], a soltura não foi bem uma soltura. Quando Gil e eu chegamos a Salvador no avião da FAB, acompanhados do chefe da polícia federal do Rio de Janeiro, tinha uma ordem de prisão antiga. Aí fomos jogados numa cela de novo. Só soltaram a gente à noite. Saímos sem dinheiro, meio apavorados. Quando chegamos à minha casa, só tinha Nicinha, minha irmã de criação mais velha. Meus pais e meus irmãos tinham ido para o aeroporto e não sabiam que a gente tinha sido detido de novo [por mais algumas horas]. Quando vi a casa toda vazia, fiquei louco. Louco, louco, uma coisa terrível. O mesmo negócio que senti quando tomei ayahuasca, uma coisa que não dava na cabeça. Corria de um cômodo para o outro, gritava, chorava. Pensei: “Pronto, não existo mais”. Aí chegaram as pessoas, meu pai na frente. Quando ele me viu, falou assim: “O que é isso? Não me diga que você deixou esses filhos da puta te botarem nervoso?”. Fiquei bom. Na hora! Abracei ele e comecei a chorar. Foi uma ordem. Se meu pai não tivesse chegado, estava louco até hoje.
Fefê
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