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9.8.08
Sou suspeita para falar porque, quando se trata do amor, nunca se é isento... Mas, neste sábado, ele se superou. Uma crônica saborosa, digna de todos os elogios :
POIS É...
Pudim sem culpa
'Neto é a gente mesmo, demais, vindo lá atrás, num ponto qualquer da linha da vida. É a idéia de continuidade, da presença no tempo, representação do infinito'
(Maurício Lara)
Sabe o que é neto? Neto, dizem, é filho com açúcar. É, pode ser, mas não é só isso. Neto é um prato de pudim, daqueles grandes, sem culpa. Isso mesmo, neto é um prato de pudim sem culpa. Pode comer, não faz mal. Não é de padaria, nem de supermercado, nada industrial; é quitanda da boa, receita de família, do caderno da vovó, daquelas guardadas e embrulhadas para presente. Nada de adoçante, é açúcar mesmo, de cana, cristal, adicionado a gosto, um tanto bom. Neto é pudim que não aumenta glicose, não engorda, não tem colesterol. Pode comer, repetir, raspar o prato, lamber os beiços, não é falta de educação, ninguém repara, ninguém condena. Pode limpar a boca no forro da mesa, sujar os ouvidos, respingar nos olhos, molhar os cabelos.
Neto é isso, ou mais que isso. Neto é a gente mesmo, demais, vindo lá atrás, num ponto qualquer da linha da vida. É a idéia de continuidade, da presença no tempo, representação do infinito via repetição, ou via inovação. Renovação, quem sabe. Começar de novo. Neto é a idéia de geração, talvez, experimentação; é a gente, talvez, melhorado. Neto pode, neto a gente deixa o que quiser, neto é sem censura, neto nunca é demais. Neto é filho que olha, que reprime, que educa, não é avô.
E neta, sabe o que é neta? É Manuela que vem chegando, devagar, com espera de nove meses. Manuela que vai se juntar a João, Matheus e Henrique, que vai entrar na farra, fazer bagunça, rir desbragada, crescer integrada. Essa turma é para criar solta, feito passarinho, sem contrariar. É dar de comer e afagar, é ver crescer e apreciar, é observar e acreditar.
Neto é a balbúrdia e o silêncio, é a algazarra e a paz, é a festa e o melhor, esperar por ela. Neto é depois, mas chega primeiro ao pote, com sede, mas sem quebrar. É o santo sem pés de barro, é o andor mais decorado e mais leve, que tem cheiro de flor. Neto é antigo, mais velho que a serra, tão novo que nem aconteceu. Neto é uma surpresa continuada, um riso continuado, uma esperança continuada.
Neto é dobrar a esquina, romper a subida, remover a montanha; é o moto-contínuo, energia renovável, desenvolvimento sustentável, rotina agradável, intenção louvável. Neto é sentimento bom, manhã de domingo, tarde de férias no quintal da casa da avó. O segredo é treinar com filho para aprender com neto, que é ensinamento, firmamento, endeusamento, agradecimento, amaciamento. É passado e futuro.
É o que já foi e o que bem virá. É o porvir, a surpresa, o bilhete premiado, a razão sem explicação. Neto é a negação do sentimento de que o mundo não tem jeito, é a superação do medo, a afirmação do bem, a sensação de paz. É tirar sapato apertado, é um copo de água fresca, é fazer xixi na piscina, é um abraço apertado.
Neto é a alegria da chegada da Manuela, de imaginar o futuro sem sombra e sem susto, uma verdade e uma certeza. É Manuela no berço, é Manuela na grama, é Manuela no peito, é Manuela espaçosa e à vontade no mundo. É Manuela depois de João, depois de Matheus. São eles na fila, no meio, na frente, na dianteira, elos da corrente. Neto é o velho vindo lá atrás, começando outra vez, escancarando o sorriso, expondo a alma, abrindo o coração. É o velho rolando no chão, fazendo travessura, perdendo a compostura, espantando a tristeza, esquecendo a braveza. Neto é amolecer sem perder a ternura. Neto é porque a vida vale a pena.
Fefê
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